Arvorinho

Um belo dia, que no calendário era um dia qualquer, tive o prazer de conhecer Arvorinho. Arvorinho era, como o nome insinua, uma árvore pequena, na verdade, um pequeno brócolis. Pequeno no tamanho, mas gigante na ambição.
E por que digo isto? Já vou explicar:
Eu voltava da feira e, como sempre faço, deixei as compras na mesa que tenho no meu jardim. Fui tirando tudo das sacolas e organizando para lavar antes de entrar em casa. Lembro que estava pegando os tomates quando ouvi um chorinho insistente. Primeiro, estranhei aquele barulhinho, porque claramente vinha da mesa, mas, antes que pudesse duvidar dos meus sentidos, me deparei com aqueles olhos verdinhos tristonhos. Ele me olhou assustado, por se sentir descoberto, apertou a boquinha, como que para não fazer mais barulho, mas as lágrimas continuavam a cair sem controle. Olhei para ele e disse:
— Oi! Posso ajudar?
— Não! Desculpa, não consigo parar de chorar.
— Qual o seu nome?
— Arvorinho.
— Mas o que te aflige, Arvorinho?
— Estou muito triste e chateado. Fui enganado a minha vida toda e descobri isso agora.
— Como assim?
— É que minha mãe sempre me disse que eu era grandioso, que eu ajudava as crianças a crescerem forte. Que eu representava um capricho da natureza por ter me feito tão perfeitinho, verdinho e com caule e brotos. E eu acreditava. Ficava feliz de ser tão importante para as pessoas. Meu pai também mentiu para mim, ele me dizia que eu não era um fracote. Que eu era poderoso. Que eu carregava comigo fibras, vitaminas e até betacaroteno. E eu me achava incrível. Já nem ligava para as implicâncias do cheiro verde que vive dizendo que sou anão e que meu cabelo é crespo. Eu sempre achei que era mentira, eu logo respondia: sou grandioso, tenho betacaroteno, sou capricho da natureza!
— Ué, mas tudo isso é verdade! Você é incrível! As crianças sabem da sua importância. Você é saudável e embeleza o prato, as saladas, até as pizzas.
— Não é verdade, não. Sou um zé-ninguém.
— Mas por que você diz isso? Vai acreditar no cheiro verde? Isso é inveja dele
— Não é não. Olha ali na frente. Aquele sim é grandioso. Nunca imaginei que alguém pudesse ser tão alto, tão forte e possuir tão lindas flores. Por que não sou assim? Por quê?
— Quem? Aonde?
Arvorinho, ainda chorando, apontou:
— Ali!
Acompanhei seu dedinho e me deparei com a Flamboyant vermelha que tenho no meu jardim.
— Sim, ela é muito linda. Tem flores vermelhas que embelezam a vida, mas não tem betacaroteno.
— Para que serve o betacaroteno? Queria ser como ela. Linda! Todos que olham se apaixonam, mas não, sou esse anão feio, todo verde e de cabelo crespo. O cheiro verde tinha razão! Meus pais me iludiram. Me fizeram acreditar que eu era popular, grandioso e importante para todos.
— Arvorinho, você é incrível sendo do jeitinho que você é. A flã (apelido da flamboyant) é linda, mas não alimenta as crianças, não ajuda com vitaminas e betacaroteno e não é capaz de enfeitar um prato. Ela serve para embelezar e dar sombra, o que ajuda muito, mas não é poderosa como você. Aposto que de lá, ela deve te olhar e pensar: como pode? Ele tão pequenino, é capaz de ser tão saudável, tão querido pelas crianças. Queria ser como ele.
— Arvorinho, se ajeitou na mesa, se empinou um pouquinho, se mostrando um pouco mais prosa de ser ele mesmo e me perguntou:
— Você acha que a Flã me admira?
— Tenho certeza! Quem não gostaria de ter vitaminas, fibras e betacaroteno? E ainda ser muito amado por todos?
— Então, meus pais não mentiram? Sou um capricho da natureza, ajudo as crianças e elas me amam. Isso... é verdade?
Nesse instante, minha neta se aproxima da mesa, sem perceber o que se passa, me diz?
— Vó, você comprou brócolis??
— Claro! Brócolis é um capricho da natureza.
— Oba! Eu quero!
Olhei rapidamente para Arvorinho e o vi sorrindo com aqueles olhinhos verdes.
Quando minha neta saiu, me aproximei dele e falei baixinho: jamais duvide do seu valor. Não importa o quão verde o outro é, o seu verde é único. Só você tem!

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