Sei lá...

    Sei lá...sei lá...
    Epa, como aconteceu isso? Como essas palavras saíram da minha boca sem que eu me lembre de tê-las pensado? Como assim, no caminho pro banheiro durante meu expediente de trabalho, profiro em alto e bom som, independente da minha vontade lúcida,  essa triste realidade? Sei lá...Sei lá!
    Que coisa esquisita! Quem é esse que através da minha boca e sem  autorização prévia diz que existe um lugar em mim que está pra além ou aquém de mim onde mora um saber que eu não sei ? Não, não posso me dar por feliz por descobrir que em alguma parte de mim sei mais do que julgava saber. Não vou cair nessa armadilha, afinal acabo de sofrer a invasão do meu eu pirata que num só golpe toma de assalto a  minha voz, revela-me um tesouro perdido e  rouba para si todas as minhas certezas ao proclamar que aqui onde eu julgava saber, eu nada sei. 
    Isso tudo é muito confuso, mas sou obrigada a reconhecer que, então, sou uma impostora de mim mesma. Por outro lado, diante desta revelação, deixo de ser ignorante , pois agora sei  que existe um lugar em mim que abriga um saber até então, não sabido.
    Hum, mas espera aí, não...talvez essa revelação funde o meu lugar de ignorante vitalício, porque agora sei sabidamente que existem coisas que eu não sei e não sei se um dia saberei. 
    Pois bem, assumindo que fui ignorante durante todos esses anos e que vivi muito satisfatoriamente na minha alienação, navegando por mares de não saber,  sentindo-me colonizadora das minhas terras, não consigo entender,  o  que faz com que justo agora esse eu pirata decida me revelar que lá nas profundezas do meu ocEUano  existe um tesouro de saber soterrado a esperar por mim?
    Não sei, acho que preferia jamais ter sabido a existência dessa ilha no meu mapa. O sentimento que me invade é indecifrável, como foi pra mim, pelo visto,  a rota do meu eu. Afinal, constato após 51 anos de viagem que naveguei por outros mares que não eu ou muito pior do que isso, que enfrentei mares e tormentas com a bússola invertida,  lutei com inimigos que talvez fossem meus aliados, comemorei vitórias que  talvez tenham sido as minhas derrotas. Brindei com marujos que falseavam as coordenadas. 
    E agora? Declaro-me naufrago de mim mesmo? 
    Espera...não, claro que não! Eu venci. Eu nadei sem cansar. Não me deixei afogar. Sim, é óbvio, emergi quando agarrei a minha língua e proferi as palavras que estavam na garrafa que um dia eu joguei ao tempo para me reencontrar. 
    Não tenho tempo a perder, hora de me lançar ao mar em busca da  ilha do Sei lá , onde repousa o tesouro do meu finalmente ser. 
    E quando lá chegar com a alma lavada, direi: Eu à vista!

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