Postagens

Mostrando postagens de março, 2020

Arvorinho

Um belo dia, que no calendário era um dia qualquer, tive o prazer de conhecer Arvorinho. Arvorinho era, como o nome insinua, uma árvore pequena, na verdade, um pequeno brócolis. Pequeno no tamanho, mas gigante na ambição. E por que digo isto? Já vou explicar: Eu voltava da feira e, como sempre faço, deixei as compras na mesa que tenho no meu jardim. Fui tirando tudo das sacolas e organizando para lavar antes de entrar em casa. Lembro que estava pegando os tomates quando ouvi um chorinho insistente. Primeiro, estranhei aquele barulhinho, porque claramente vinha da mesa, mas, antes que pudesse duvidar dos meus sentidos, me deparei com aqueles olhos verdinhos tristonhos. Ele me olhou assustado, por se sentir descoberto, apertou a boquinha, como que para não fazer mais barulho, mas as lágrimas continuavam a cair sem controle. Olhei para ele e disse: — Oi! Posso ajudar? — Não! Desculpa, não consigo parar de chorar. — Qual o seu nome? — Arvorinho. — Mas o que te aflige, Arvorinho? — ...

Festa dos afetos

De repente, aquela rotina que parecia uma sina deixa de ser. Somem os beijos, os abraços, some o compasso que desenha os dias, tudo vira parede fria e desejo de viver. Estranho é que antes, por mais que faltasse dinheiro, brigadeiro,  viagem de cruzeiro e água quente no chuveiro, a porta estava ali, se podia abrir. Era só sair. Hoje tudo está acabado. Fomos nocauteados. Não podemos brincar de ir e vir.  Agora ninguém se toca, estamos presos na toca, contemplando o porvir. Talvez essa seja a lição, privados de contato, nos descobrimos irmãos. O vírus chegou, bagunçou geral. Esfregou na nossa cara que somos Ser social. Pensando bem, pode ser que ele não seja tão mau, ao nos roubar o afago E impor distanciamento, reinventou o desejo de envolvimento, de pertencimento a vida real. Então, Brindemos ao renascimento! Criando o abraço no isolamento, o carinho sem tato e o amor feito de ato. Essa é a visão: A União  jorra da solidão.  Enquanto estou ...

Dona de tudo

Ela nasceu em Março com o sol em peixes A lua em seu olhos e as marés no seu peito. Pelo zodíaco seu elemento era água, mas era certo que isso não bastava pra explicar seu poder. Era Solo fértil e feliz. Me alimentou do seu colo e plantou minha raiz.  Era minha terra, era meu tudo, era meu país. Pensando bem, ela era muito mais que isso. Não que fosse pouco ser  tudo isso, mas ela tinha   feitiço, sabia dominar o fogo e o ar. Afinal, como explicar a combustão que ela fazia com seu jeito de amar? Dizem que era um vulcão, pra mim sempre foi constelação, pois deitava em seu colo e achava a   direção. Seu sorriso reluzia toda a luz e magia dos mais diversos cometas. Desafiava a solidão dos planetas, dava cor ao meu brincar. Sua presença tinha a  força das correntezas, das ondas a bravura e a nobreza com toda sua imensidão de mar. Mas o que dizer do seu toque? Do seu jeito de aninhar? Ah, vó, você era grandeza, você sempre foi  ce...

A colher e a faca

Um belo dia a colher chamou a faca pra brincar . Ela meio sem jeito decidiu aceitar, mas não sabia muito bem como se comportar. Pra colher parecia fácil brincar de catar, juntar, amontoar e até em avião se transformar. A faca ria dessas estripulias, só que nesse mundo ela não cabia. No fundo, achava a Colher muito louca porque ela se divertia até com a sopa.  Brincava de não deixar sobrar.  A colher desavisada achava que a faca não era afiada e a chamava pra brincar de se lambuzar. Isso era uma loucura porque a faca toda dura nem deixava a colher se aproximar. Por mais que a colher dissesse que não era arriscado, pra faca o mundo era assombrado, um eterno despedaçar. Não podia rir,  tinha que ferir. Não sabia juntar, porque tudo tinha que cortar. Não podia deixar rolar, tinha sempre que ceifar. A colher foi ficando triste ao perceber que sem espetar com a faca ela não poderia brincar. Ah, mas isso era tão impossível, ela não sabia prender, nem dentes ela...

Nasci Ela!

Eu nasci Ela! E, com certeza, isso me complicou em algumas coisas, porque o mundo logo se ocupou de me dizer que nem tudo me seria permitido ou, pelo menos, muito me seria negado. Aliás, o primeiro dos cortes foi o mais profundo, pois almejava arrancar uma posta do meu desejo pulsante de apenas Ser. É, não agradava em nada esse meu jeitinho desajeitado de ser eu mesma. Era uma constante preocupação para o entorno essa minha mania de questionar e responder sem ser autorizada, de não aceitar estar em desvantagem em nenhuma condição e de desfrutar dessa maldita intimidade que eu sempre tive com meus cantos mais obscuros. Hoje, vejo que era isso que causava um certo mal estar familiar, uma preocupação escolar, uma náusea social. Era intolerável essa insistência em querer se permitir desejar, fantasiar, imaginar, sonhar e realizar. Eu não queria outra saída, ser mulher era o único caminho. Desde muito cedo apostei que seria aventura e nunca condição. É um eterno lançar-se sem contenção....