Nasci Ela!
Eu nasci Ela! E, com certeza, isso me complicou em algumas coisas, porque o mundo logo se ocupou de me dizer que nem tudo me seria permitido ou, pelo menos, muito me seria negado. Aliás, o primeiro dos cortes foi o mais profundo, pois almejava arrancar uma posta do meu desejo pulsante de apenas Ser. É, não agradava em nada esse meu jeitinho desajeitado de ser eu mesma. Era uma constante preocupação para o entorno essa minha mania de questionar e responder sem ser autorizada, de não aceitar estar em desvantagem em nenhuma condição e de desfrutar dessa maldita intimidade que eu sempre tive com meus cantos mais obscuros. Hoje, vejo que era isso que causava um certo mal estar familiar, uma preocupação escolar, uma náusea social. Era intolerável essa insistência em querer se permitir desejar, fantasiar, imaginar, sonhar e realizar. Eu não queria outra saída, ser mulher era o único caminho. Desde muito cedo apostei que seria aventura e nunca condição. É um eterno lançar-se sem contenção. É um aventurar-se por caminhos tortuosos, mas sabendo-se estrada e jamais precipício. E daí que não tem atalho? Sigo firme no caminho onde várias placas advertem sobre os riscos de se crer andarilha. Eles temem e eu encaro. Eles embarreram e eu forço passagem. Várias são as armadilhas, as tentativas de amordaçarem minha Lilith e seduzirem
minha Eva, mas todas hão de fracassar. Eu não preciso temer, não preciso calar, não enganei ninguém, não ofereci nenhum fruto. Comi a maçã e plantei a semente, sem culpa. E foi assim que entrei no paraíso. Não se apavorem, não matei Adão. Ele esta vivo e é meu vizinho, mas nunca fui sua inquilina. Vivemos muito bem a nossa política da boa vizinhança. Cada um com suas terras e seus domínios. No meu terreno vivem Eva e Lilith. Ambas se revezam na batalha diária de alimentar a liberdade de ser quem eu sou. Ambas, incansavelmente, vigiam a fronteira, porque ser mulher ainda é saber-se sob constante ameaça de invasão, mas sabemos que ninguém se torna mulher impunemente. Sagrar-se mulher é um ato coletivo. Com a luta vem a tática, a estratégia, a técnica, os recursos, as armas que fazem dessa construção uma guerra santa recheada de malandragem, charme subversivo e conquista de território. Nasci Ela e fiz disso minha patente, minha luta e minha vitória. Assumi o front dos meus dias e onde lançaram bombas eu atirei atitude. Onde ergueram barricadas, eu construí conhecimento, onde quiseram me aprisionar como bela, eu usei a fera pra não sucumbir. Onde cuspiram machismo, eu plantei coragem e brotei Mulher!
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