Ela
É que ela gostava muito de tudo que ela gostava. Ela, de fato, se dedicava, se encantava com tudo que ela desejava. Queria que fosse intenso, que contrariasse o senso.
Não tinha dificuldade para se jogar, se entregar, cair, se esparramar e se ferrar. E daí? Ela não temia. Ela queria o todo e as partes. Ela queria tudo, simplesmente tudo. Dando certo ou errado, ela queria!
Na verdade, achava mesmo insuportável não querer intensamente. Desconfiava dessa gente que só quer um pouquinho, que só quer lentamente. Desse povo medroso que acha que amar é perigoso. Ela, não. Ela queria o risco. Ainda que houvesse dor, ela queria o amor. Queria provar até enjoar. Não tinha medo de se lambuzar. Podia até se sujar. E daí? Ela queria!
Ela borbulhava, transbordava, flamejava, fraquejava, mas amava.
Se doava sem cautela, não suportava paixão de meia tigela. Era gastadeira, consumista de afeto, detestava esse povo poupaDOR que vive pesando as gramas do amor que dá.
Ela era seduzida pela ousadia, pelo excesso, pela demasia.
Achava mesmo que a covardia atravancava as regalias que a paixão precisa ter para melhor viver.
Não ansiava que fosse para sempre, mas que fosse excludente a possibilidade de qualquer outro ser.
Ela desejava explosão, expressão, intenção, sem isso era só corrosão. Aí, ela partia e largava de mão.
Nunca foi só curtição, até nos posts, no mínimo, era coração. Ela sempre reagiu, sempre respondeu, comentou, publicou. Nunca entendeu a alma dos silenciosos, dos contidos, dos reprimidos, ora achava-os sofridos, ora metidos. Nunca foi capaz de tal desprezo, de ação calculada, ela queria se dar e ser amada. Não sabia jogar, negociar, racionar, regular seu amar. Apenas queria, sorria, nutria, se lançava, se entregava, se apaixonava e, às vezes, sofria, porque a vida nem sempre perdoa os precipitados, os sedentos, os intensos e os interessados. Muitas vezes dá errado porque o outro é morno ou gelado. Aí todo amor é desperdiçado, desencantado e descartado, vira lixo afetivo, romance inacabado.
Nisso, ela não insistia. Gostava mesmo era de quem sabia manter a peteca no alto. Quem rebatia e se jogava do jeito que dava para manter o jogo aquecido. Se encantava com quem ria, curtia, surpreendia e se atirava nessa brincadeira tola de dizer o que quer num dito qualquer. Adorava pegar no ar o que o outro jogou para cima em forma de senha, cifra ou rima. Assim, se divertia, se deleitava e se reinventava.
Apaixonava-se por detalhes que, talvez, ninguém valorizasse: um olhar perdido no espaço, um humor destilado, vírgulas bem colocadas na oração, uma timidez espirituosa, uma certa solidão. Pensando bem, era fundamental que soubesse falar cifrado na linguagem secreta da sedução e, também, soubesse ler, nas entrelinhas, todo tipo de convocação e de declaração. Tinha que ser sujeito do verbo, de preferência transitivo direto, para não se perder tempo com preposição.
Assim, ia vivendo a vida, sem pretensão. Brincando de inventar paixão. E daí? Ela sabia. Ela sofria. Ela queria. Ela se divertia!
Comentários