Tamanho GG

Tamanho GG
Toda gordinha que se preze já experimentou a aventura e a amargura de querer uma roupa estilosa, bonita, ou até mesmo sensual, para aquela saidinha. Nem estou me referindo às festas de casamento e 15 anos, não. Isso é bem mais complicado. Estou falando do níver da amiga, do churrasco do colega do trabalho ou até mesmo do barzinho ou encontro à noitinha. É inacreditável, você não acha! As roupas, em sua maioria, não são tendência.  São sempre floridas ou estampadas, mas aquele tipo de estampa que me lembra a camisola de pano da tia Cleide. Na verdade, a maioria das blusas GG tem uma cara sóbria, emburrada. Dificilmente são joviais. E acho injusto que, além de ser gordinha, tenha que me sentir no século passado. Me deixem ser fofa, por favor!
Eu não consigo entender que tipo de perseguição é essa. Ontem mesmo, depois de muito andar no shopping em busca de uma blusa GG, cheguei a desconfiar que deva existir uma associação de estilistas que estabelece metas para inviabilizar a participação de gordinhos nas tendências da estação. Só pode. A prova disso veio quando eu estava numa grande loja de magazine, e vi uma blusa que gostei. Um tecido com uma estampa diferente, um corte bacana e uma certa transparência. Fui olhar a etiqueta e era tamanho P. Tinham várias blusas iguais, mas iam do PP ao M.  Me certifiquei de que não estava no infantil. Chamei a vendedora e falei:
— Eu quero uma dessa GG, por favor.
Ela me olhou espantada, como se eu pedisse algum milagre ou absurdo, e me respondeu:
— Não tem! Essa blusa só tem tamanho NORMAL.
Como assim normal? Quando passei a ser anormal? Só me achava um pouquinho diferente, mas anormal?! Ela sorriu e seguiu seu caminho e eu fiquei ali pensando: quem veste PP? Quero conhecer, abraçar, tocar. Porque é raro. Quase um ovni. Digo isso, porque em todas as araras se amontoam roupas tamanho 34 a 40 ou PP a P, mas não vejo ninguém pegando. E quando você quer GG, na maioria das vezes ou não existe, ou acabou, ou é a última. Já, inclusive, ouvi de outras vendedoras:
—GG chega e acaba logo.
Então, concluo que os gordinhos comem e, também, gastam muito mais do que os magrinhos com roupa e compram tudo que encontram ou produzem poucas peças e somos muitos mais do que eles gostariam. Acabo por acreditar que a indústria da moda produz para um público que ela sonha, para o qual ela modela, mas que efetivamente ela não tem. Sobra PP e P, e falta GG.
Eu entendo que algumas modas realmente não valorizam em nada o corpo gordinho. Algumas tendências até sacrificam bastante, talvez, por isso, não façam GG, mas o gordinho não tem o direito de querer? Eu não posso querer usar um cropped? Se vai ficar bom ou não, não seria um problema meu? Não vou dizer que não fazem nenhuma roupa estilosa tamanho GG. Até fazem, mas só para iludir. Essas peças GG que você olha e se encanta portam uma certa falsidade. Se chamam GG, mas nem quem usa M consegue se manter ali dentro. Me sinto ludibriada, enganada, porque pego para experimentar com aquele sentimento de pertencimento a um grupo, com aquele sorriso de quem vai estar na moda, e aí, na solidão do provador, aquele gosto de desilusão.  Só entra metade de mim.
Por que fazem assim? Para esse GG mentiroso, era melhor colocar uma etiqueta mais honesta, sugiro “P folgado”. Por favor, aquilo não é GG de grande e gordo. É GG de gata gostosa, uma blusa um pouco maior que o P com nome de GG para magros com peitos maiores.
Nessa hora vem o ranço, eu me prometo um futuro diferente, dietas, exercícios, malhação pesada. Juro vingança. Sentencio no espelho: Isso não vai ficar assim!
Depois, por um momento, chego a pensar que talvez a tal associação de estilistas tenha alguma parceria com os grupos de emagrecimento. Quem sabe o objetivo não é positivo? Para gordinhos roupas sem atrativos, feias mesmo para que se forcem a sair do GG. Devo aderir à proposta ou serei resistência?
Assumo que meu sonho de consumo sempre foi o M. Digo M, porque G já fala de um certo excesso, de um risco de pôr tudo a perder. M é o lugar do paraíso. Representa um mundo de coisas boas. Você não é magra, nem gorda. Você deve ter coxa roliça, um bumbum que preenche a calça, costas não largas, peito médio, enfim, um corpinho que te dá acesso a todo tipo de vestimenta: cropped, vestidos, shortinhos.  Sendo M você pode tudo. Só não pode ser modelo. Mas quem quer ser? Essas vestem super PP, são aplaudidas nos desfiles, mas são como zumbis, não representam ninguém. Quem você conhece que usa PP?
Na verdade, acho que os extremos não agradam. Quem usa PP também reclama.  Embora seja mais fácil fazer ajuste quando se trata de apertar. Para nós GG, nem a chance do ajuste nós temos. Bem que podia vir um tecido extra para quem precisa abrir um espacinho na blusa, porque, às vezes, é um dedinho só, bastava um pouquinho para fechar o botão. Nesses casos, o abatimento é mais profundo. Afinal, trata-se de um quase Ser. Você experimenta a alegria de sentir a roupa entrando, parecendo que vai fechar. E aí, por alguns centímetros de abuso, de excesso, o sonho não rola. Vem aquele sentimento de que você não vai causar em lugar nenhum.
O que mais me chateia é que a moda me tira o direito de imprimir meu charme, minha formosura nos modelitos fashion. Entendo que o estilista cria pensando colocar sua criação num corpo que valorize a sua peça, mas nós gordinhos também temos nossos encantos, nossas estratégias de sedução e recursos ocultos que valorizam a peça. Está certo que nem tudo fica bem e que, muitas vezes, algumas pessoas perdem a noção, mas isso acontece com os magrinhos também. Então, por favor, nos deixem ousar!!
Imagino que você esteja se perguntando por que não fui numa loja só para gordinhas. Te confesso que já fui e até já comprei lá, mas não é o mesmo glamour, não tem o mesmo prazer. A começar pelo fato de que quando eu entrei na loja me invadiu um sentimento de derrota. Era isso, eu tinha rompido para sempre com a possibilidade de estar no G. É como se você decidisse dar um passo sem volta. Confesso que, inicialmente, até me fez bem, porque lá eu descobri o XXG e, pela primeira vez em anos, me senti magra. Porém, depois, um arrepio me percorreu o corpo e imaginei que isso era um sinal de Deus de que as coisas poderiam piorar. Imagina se vai botando mais letra, número, daqui a pouco você veste uma etiqueta tipo placa de carro, 3XXXZY. Não, nem pensar. Não posso repousar no fato de que existem lojas que sempre botarão mais um X para mim, porque lá as blusas também são estilo tia Cleide.
A bem da verdade, quero reivindicar o direito de ter acesso a Blusas GG’S que sejam bonitas, estilosas , na tendência da moda, e que sejam GG de verdade.  Não é possível que os estilistas não consigam entender o que é um tamanho GG. Se quiserem, me ofereço para estudos ou molde, ou assumam a falsidade e mudem o GG para o QD (quase deu). Estou cansada dessa onda de ter que ser o que se determinou melhor ser. Posso até um dia vir a ser M ou G, mas enquanto esse dia não chega, quero o direito de usar GG.
Por ora, aqui no meu pedaço, PP significa “Para de Palhaçada” E GG interpreto como “Gosto Grande ou Gata Gostosa”. Quero o direito de causar por aí! Então, lanço um apelo aos estilistas:  Sensualizem as gordinhas! Somos resistência!  Parem de envelhecer o GG. Eu sou gorducha, mas sou poderosa.  Quero estar na moda. Não me excluam, não. Acreditem, toda GG quer lacrar! Nos ajude a arrasar! Nós queremos comprar! Somos fortes e somos muitas! Mais amor, por favor!

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