Sobre o tempo no espelho
Eu sempre ouvi dizer que as rugas eram a expressão de uma vida bem vivida. Um certo símbolo da vitória, a prova incontestável de um tempo digerido. Para muitos, as rugas tinham status de totem e eram mesmo sagradas.
Sim, não tinha como negar que tê-las garantia um certo poder, um certo saber sobre todas as coisas. Afinal, em poucas linhas, no máximo três por testa, tinha-se o resumo de toda uma vida. Sempre me perguntei se essas linhas não seriam rascunhos mal feitos de noites mal dormidas. Sempre me revoltei com essa função de lousa para o coletivo. Sempre me questionei: Quem precisa de rugas no centro da testa? Não posso escolher escrever, e não publicar meus anos vividos?
Tão logo meu resumo de vida foi aparecendo, eu fui me rebelando e lutando do jeito que dava. De minha parte, nutria um desprezo profundo por elas e, sempre que podia, diante da maquiagem, eu as renegava três vezes. Não era de se estranhar que eu não às bajulasse, eu também nunca liguei para as estrelinhas que premiavam os bem comportados na escola.
O tempo foi passando e as rugas foram vencendo a batalha. Por mais que eu tentasse negociar, pedir uma certa discrição, um certo respeito com aquela que eu costumava ser no espelho, nada as sensibilizava. Foram invadindo e dominando tudo. Começaram querendo mostrar ao mundo que eu, ao longo da vida, tive muitas preocupações, então surgiram as primeiras linhas ditas de expressão. Depois, decidiram que era importante mostrar que eu fui feliz e intensa nessa vida. Por isso, demarcaram ao redor dos olhos. Como se não bastasse, consideraram relevante enaltecer a boca que tanto falou, contou histórias, beijou, esbravejou, amou e muito sorriu. E, para isso, decoraram tudo ao seu redor com sulcos que lembravam o famoso bigodinho chinês.
Parece sedutor andar por aí com essa sinceridade escancarada, valorizando a nudez do tempo, mas confesso que eu queria uma veste que me poupasse desse nudes diário.
Como dar conta desse estandarte que o tempo nos obriga a desfilar? Orna-me a face com rabiscos de vida e promove a magia de eternizar o que fui pela constatação do que já não sou, mas ainda me sinto ser.
Diante do fato consumado e consumido, só me resta Rogar as rugas que sejam econômicas nesse seu dizer sobre o meu existir.
Sim, não tinha como negar que tê-las garantia um certo poder, um certo saber sobre todas as coisas. Afinal, em poucas linhas, no máximo três por testa, tinha-se o resumo de toda uma vida. Sempre me perguntei se essas linhas não seriam rascunhos mal feitos de noites mal dormidas. Sempre me revoltei com essa função de lousa para o coletivo. Sempre me questionei: Quem precisa de rugas no centro da testa? Não posso escolher escrever, e não publicar meus anos vividos?
Tão logo meu resumo de vida foi aparecendo, eu fui me rebelando e lutando do jeito que dava. De minha parte, nutria um desprezo profundo por elas e, sempre que podia, diante da maquiagem, eu as renegava três vezes. Não era de se estranhar que eu não às bajulasse, eu também nunca liguei para as estrelinhas que premiavam os bem comportados na escola.
O tempo foi passando e as rugas foram vencendo a batalha. Por mais que eu tentasse negociar, pedir uma certa discrição, um certo respeito com aquela que eu costumava ser no espelho, nada as sensibilizava. Foram invadindo e dominando tudo. Começaram querendo mostrar ao mundo que eu, ao longo da vida, tive muitas preocupações, então surgiram as primeiras linhas ditas de expressão. Depois, decidiram que era importante mostrar que eu fui feliz e intensa nessa vida. Por isso, demarcaram ao redor dos olhos. Como se não bastasse, consideraram relevante enaltecer a boca que tanto falou, contou histórias, beijou, esbravejou, amou e muito sorriu. E, para isso, decoraram tudo ao seu redor com sulcos que lembravam o famoso bigodinho chinês.
Parece sedutor andar por aí com essa sinceridade escancarada, valorizando a nudez do tempo, mas confesso que eu queria uma veste que me poupasse desse nudes diário.
Como dar conta desse estandarte que o tempo nos obriga a desfilar? Orna-me a face com rabiscos de vida e promove a magia de eternizar o que fui pela constatação do que já não sou, mas ainda me sinto ser.
Diante do fato consumado e consumido, só me resta Rogar as rugas que sejam econômicas nesse seu dizer sobre o meu existir.
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