Tons pastéis
Num belo dia, que tinha a graça de ser um dia qualquer, numa semana que se disfarçava de mais uma no meio de tantas outras, dentro de um tempo qualquer que eu já não me lembrava bem quanto tempo de fato representava, abri os olhos!
Lembro que foi bem no meio do nada que os abri. Abri de dentro pra fora, porque há muito só os abria de fora pra dentro. Assim que me deparei com todo o movimento de cores, luzes e formas, como um relógio velho que se dá corda, os ponteiros voltaram a se movimentar.
O estranho é que parecia que nunca haviam parado. Os segundos já começaram correndo pressionados pelo minutos que imponentes queriam reinar.
Acordei...
Mal despertei no mundo dos vivos pulsantes e já me deparei com seus olhos de esfinge que pareciam espreitar todas as minhas fraquezas. Ainda desencontrada de mim e determinada a decifrar o enigma do meu adormecimento ao longo do tempo, me deixei devorar por você. Com a fome de milênios, você devorou todos os meus medos, um a um sem nenhum pudor.
E antes mesmo que eu pudesse salvar algum, na tentativa de guardar um significante da minha existência, você os engoliu com gosto e despretensiosamente. Recordo-me bem o som da sua última mordida no meu medo de não ser uma mulher interessante...
Aliás, pensando bem, não foi exatamente isso que me fez adormecer por todo esse tempo? Esse maldito medo de não ser...Tenho certeza que sim! Lembro bem que antes de me refugiar no oásis da preguiça, das desculpas esfarrapadas e inseguranças mundanas, ainda olhei para tudo em volta de mim buscando estratégias que me fizessem voltar a ser o que eu sonhava ter sido, mas não teve jeito, tudo , por menor que fosse, parecia muito. Muito difícil, muito cansativo, muito custoso.
Curioso que ainda que eu soubesse que me faria falta todo esse suposto eu, insistia em mim o desejo de arrancar-lhe a roupa e dar um fim a extenuante rotina de maquiar a alma.
Aos poucos tirei o batom, o blush, o rímel e junto com eles se foi toda a erótica de existir.
Sem perceber fui colocando tudo em tons pastéis. Fui tirando o vermelho que tudo colore com intensidade e paixão e trocando pelo famoso nude que os antigos chamam de bege. Afinal, me parecia mais apropriado que os dias fossem mais inverno do que verão. Mais calmaria do que ebulição. Mais serenidade do que desassossego.
O que hoje me causa espanto é que tudo acontecia como um processo natural. Um calar-se pela vontade mesmo de não falar. Um deixar para lá porque se quer ficar cá. Era como se tudo fosse o que parecia ser. Os dias eram de um certo begezinho, bem clarinho, bem delicadinho. Eram feitos daquele tipo de cor que tudo acomoda e nada incomoda.
Fui deixando, aceitando que o bege, aos poucos , silenciasse todo o vermelho que havia em mim.
Em 31/3/19. Primeiro escrito.
Lembro que foi bem no meio do nada que os abri. Abri de dentro pra fora, porque há muito só os abria de fora pra dentro. Assim que me deparei com todo o movimento de cores, luzes e formas, como um relógio velho que se dá corda, os ponteiros voltaram a se movimentar.
O estranho é que parecia que nunca haviam parado. Os segundos já começaram correndo pressionados pelo minutos que imponentes queriam reinar.
Acordei...
Mal despertei no mundo dos vivos pulsantes e já me deparei com seus olhos de esfinge que pareciam espreitar todas as minhas fraquezas. Ainda desencontrada de mim e determinada a decifrar o enigma do meu adormecimento ao longo do tempo, me deixei devorar por você. Com a fome de milênios, você devorou todos os meus medos, um a um sem nenhum pudor.
E antes mesmo que eu pudesse salvar algum, na tentativa de guardar um significante da minha existência, você os engoliu com gosto e despretensiosamente. Recordo-me bem o som da sua última mordida no meu medo de não ser uma mulher interessante...
Aliás, pensando bem, não foi exatamente isso que me fez adormecer por todo esse tempo? Esse maldito medo de não ser...Tenho certeza que sim! Lembro bem que antes de me refugiar no oásis da preguiça, das desculpas esfarrapadas e inseguranças mundanas, ainda olhei para tudo em volta de mim buscando estratégias que me fizessem voltar a ser o que eu sonhava ter sido, mas não teve jeito, tudo , por menor que fosse, parecia muito. Muito difícil, muito cansativo, muito custoso.
Curioso que ainda que eu soubesse que me faria falta todo esse suposto eu, insistia em mim o desejo de arrancar-lhe a roupa e dar um fim a extenuante rotina de maquiar a alma.
Aos poucos tirei o batom, o blush, o rímel e junto com eles se foi toda a erótica de existir.
Sem perceber fui colocando tudo em tons pastéis. Fui tirando o vermelho que tudo colore com intensidade e paixão e trocando pelo famoso nude que os antigos chamam de bege. Afinal, me parecia mais apropriado que os dias fossem mais inverno do que verão. Mais calmaria do que ebulição. Mais serenidade do que desassossego.
O que hoje me causa espanto é que tudo acontecia como um processo natural. Um calar-se pela vontade mesmo de não falar. Um deixar para lá porque se quer ficar cá. Era como se tudo fosse o que parecia ser. Os dias eram de um certo begezinho, bem clarinho, bem delicadinho. Eram feitos daquele tipo de cor que tudo acomoda e nada incomoda.
Fui deixando, aceitando que o bege, aos poucos , silenciasse todo o vermelho que havia em mim.
Em 31/3/19. Primeiro escrito.
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