Meno(s), pausa ou Meno(s)pausa?

Minha mãe sempre me dizia que eu reclamava de tudo e  nunca estava satisfeita. Lembro, como se fosse hoje, ela dizendo: um dia você vai sentir falta até do que você reclama. Vai ver que você era feliz e não sabia. 
Assumo que naquela época, essa profecia me causou um certo estranhamento momentâneo: como seria feliz sem saber que era? Achei tudo muito esquisito e julguei que minha mãe não sabia o que dizia. A partir daquele instante, inaugurei, em mim, o alarme para as tsunamis pessoais. E, assim, sempre que eu me sentia um pouquinho infeliz, me questionava: será que sou feliz sem saber? Isso me angustiava, me confundia, mas, por fim, a dúvida acabava por me distrair e, quando dava por mim, já não estava tão infeliz assim. 
Aliás, por muitos anos, acabei pensando que talvez fosse o contrário: e se eu fosse infeliz sem saber? Por conta disso, procurava garantir minha felicidade. Transformava tudo em aqui e agora. Havia sempre uma pressa, uma urgência, um desespero de não poder aguardar, de ter que conseguir, comprar, vencer, poder, ganhar, amar, viver! Ocupava-me constantemente dessa contabilidade da felicidade. Era um eterno balanço entre o ativo e passivo do meu viver.  
Os anos se passaram, e eu me convenci de que minha mãe realmente tinha se equivocado. Eu era feliz e sabia e não sentia falta de nada daquilo que um dia reclamei! Na verdade, não conseguia entender de onde ela tinha tirado essa bobagem até me deparar com o primeiro cabelo branco, o primeiro pé de galinha, o primeiro travessão na testa. Quando me encontrei com essas visitas da vida em meu rosto, me lembrei do passado com certa nostalgia, confesso. Realmente, na adolescência, quando surgia uma única espinha, eu já anunciava o fim do mundo e amaldiçoava todos os meus ancestrais. E olha que, diferentemente da ruga, a espinha não gozava dessa imortalidade. 
Senti um calafrio de medo, pois pensando à luz dos fatos, eu estava mesmo um pouquinho saudosa daquela pele espinhenta de outrora. 
Temerosa de me afundar na tristeza de quem fui pela constatação do que me sobrei, comecei a me distrair com os cremes promissores, o pilates tonificante, a hidro estimulante, a caminhada emagrecedora. Enfim, corria desesperadamente atrás de voltar a  ser, com muito gosto, o que eu reclamava de ter sido no passado. 
Seguia disfarçando, mas já concordando em parte com a profecia da minha mãe. 
A certeza mesmo de que ela  realmente me conhecia veio um tempo depois, quando decidi reclamar com meu médico o atraso de meses da minha menstruação.
O primeiro baque veio quando ele não cogitou uma gravidez. Isso era muito esquisito, passei anos me sentindo aliviada quando ele dizia: Fique tranquila, você não está gravida. Agora me enfurecia por ele nem supor que eu pudesse estar. Que absurdo! Ele achava que eu não tinha ninguém? Que vivia sozinha? Achava que eu não era mais interessante? 
Enquanto a consternação me consumia, eu tentava  entender porque estava tão saudosa dessa época em que tudo podia ser gravidez.
Não me contive e falei: eu tenho namorado. Acha que posso estar grávida? Não é melhor fazer o exame? Com toda placidez de espírito, ele me olhou como se fosse me dar a alforria e me disse sem nenhum preparo: Não, você não está grávida! Isso é a MENOPAUSA. 
O chão se abriu! Como assim Menopausa? Como assim não vou mais menstruar, ter cólicas horríveis, enxaquecas,  medo de vazar? Como assim, não poderei mais ter filhos? 
Tudo bem que eu não queria mesmo, mas eu queria não querer podendo querer a qualquer momento.
E agora? Nunca mais chamarei as amigas para ver, disfarçando, se minha roupa está suja? 
Não! Eu quero minha menstruação de volta, quero minha lubrificação, meus óvulos, meu estrogênio, minhas cólicas, meu Sempre-livre noturno. 
Ele me olhava sem entender o porquê dessa rebelião. Claro, ele jamais conseguiria entender...Eu , por minha vez, atônita, discutia com a voz da minha mãe que não parava de falar na minha cabeça: Eu te avisei que você sentiria falta do que reclamava! 
Odiava menstruar e agora chora o leite, digo, o sangue, derramado. 
Eu, fazendo a louca, bradava em bom tom: Mãe, Tudo bem! Você estava um pouco certa. Eu não queria antes, eu reclamava, porque me estragava os passeios, os dias de praia, a calça branca para o baile, mas não autorizei ninguém a tirar a minha fertilidade, a roubar minha rotina.  Pode me deixar com as minhas “regras”? Eu não quero perder meu estoque de filhos. Eu não quero fogachos, eu quero fogaço! 
Não me venha dizer Meno(s), Pausa! Eu quero viver! Sinto-me inteira. Sinto-me plena. Eu quero tudo! Eu quero Meno(s)pausa. Eu não quero parar. Quero jogo!!!! Quero vida! Quero vibração da torcida! Não quero essa castração. Não quero essa pele sem viço e esse cabelo ressecado. 
Nesse momento, minha mãe-guru falou:
Filha, esse momento tem seu valor. Te tiraram o fluxo, mas a nascente vibra em você. Reivente-se.
Olhe para os fatos. A natureza te alerta Meno(s)pausa no desejo. Mais ação!
É hora de se aventurar com essa estranha tão familiar que te encontra no espelho. Ela tem seus dons e seus dotes. Assuma essa mulher na tua vida. 
Se entrega à grandeza da descoberta e seja feliz sabendo ser quem você é! 
Não tenha medo. Não é o sangue que você destila todo mês que te faz mulher. É o sangue que você alimenta correndo vivo dentro de você. Olhe do passado pro futuro e seja feliz por ser a estrada que você inventou. 
Vai, pegue o ensinamento que teu corpo te ensina. Chegou no ponto ideal. Nada mais a perder. 
Meno(s)pausa na tua vida! Siga em frente. Ovule desejo e Menstrue amor por aí!
Soraya Jordão .12/4/19

Comentários

Sarita J Martins disse…
Eu realmente estou chocada com essa sua habilidade em escrever, você mais uma vez se reinventa, parabéns você é brilhante!!!!!👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
Ana Somma disse…
Soraya, sensacional!!!! Disse tudo!!!! Vai estocando os textos para o livro. ������������
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👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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