Fotossíntese
Desde menina, eu sempre soube que as palavras estavam por aí, em tudo e em todas as coisas. Estavam no amor que minha avó me doava e que me serviu como terra fértil para que a minha raiz pudesse se firmar. Estavam nos intermináveis diários da minha mãe que, ao compartilhá-los comigo, ia me mostrando que sentimentos são formados de letras, de muitas letras. E, com isso, ia regando a minha terra e fazia crescer o meu caule.
Não posso esquecer que, do meu pai, também ganhei palavras, poucas, talvez, mas determinantes. Eram palavras-adubo, racionadas, mas precisas. Tinham o poder de acelerar o crescimento, inclusive porque traziam, no seu interior, algum tipo de agrotóxico que me fizeram brotar. Aliás, acho que foram elas que me impediram de ser orquídea. Não, era melhor não parasitar ninguém.
Fui crescendo no meio das palavras, elas entravam pelos ouvidos, pelos olhos e, algumas, até pelos poros. Se aproximavam de mim, me olhavam de perto, às vezes me roçavam, lambiam e, outras vezes, me beliscavam, mas sempre estavam ali se fazendo de clorofila. Pensando bem, melhor seria dizer clorofil(h)a, conceito que só entendi quando fui apresentada à música pela minha mãe, que dizia: ouça a letra! Lá estava ela, a luz solar que interagia comigo e alimentava o meu crescer.
Sim, com a música surgiram as folhas. E aquelas nervurinhas que desenham as folhas se formaram com o que não foi dito e com as palavras que escondem sua real intenção.
Nessa fotossíntese de palavras, eu me fiz planta. E, com as frases que lancei no mundo, eu liberei oxigênio e purifiquei o ar.
Com as palavras de amor, eu fiz as flores, com as de ira, eu construí meus espinhos. Feria os outros na carne, deixando marcas de dor e, com eles, julgava me defender, mas, na verdade, feria a pureza da minha beleza, pois meus espinhos continuavam em mim.
Mas e os frutos? Os frutos vieram como uma grata surpresa. Como um desabrochar, que não se espera, num dia qualquer. Descobri-me produzindo frutos. Depois de gestar palavras por uma vida inteira, elas pularam de mim como filhos quando deixam o lar. Logo eu, que me julgava carnívora, devoradora dos dizeres do mundo, dei frutos que entrego à terra e espero que sirvam para fazer germinar o bem dizer.
Mas se isso não acontecer, ainda assim estarei viva, pois me fiz pólen ao oferecer as palavras à eternidade da escrita.
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