Fórumbus

Mal sentei no ônibus e já fui pegando meu fone para me isolar do contato com as histórias compartilhadas no coletivo. Passei a adotar essa estratégia de fuga, depois de muitas vezes precisar descer no ponto e deixar para trás o desfecho dos fatos.
Primeiro, eu ficava bastante irritada ao perceber que estava prestes a saltar e a história não tinha chegado ao seu clímax. Algumas vezes precisei me segurar para não falar:
— Acelere, porque vou descer no próximo.
Outras vezes, me sentia tão envolvida na história, tão identificada com a personagem, que precisava me segurar para não me meter no assunto, dar conselhos, exemplos pessoais, chamar pra briga, rogar praga nos vilões e por aí ia.
Em algumas situações, a história parecia estar sendo contada para me alertar sobre algo, confirmar suspeitas cotidianas ou me fazer tomar iniciativa. Parecia mesmo que era um sinal divino para mim. O personagem social proferia uma frase, ou uma conclusão, que me socava o estômago, me fazia refletir, e, muitas vezes, até tomar algumas decisões. 
Nesse meu tempo de coletivo, fui tomando gosto por essa vivência passiva do enredo do outro. Tinha sempre aquela tensão de saber se daria tempo de ouvir a moral da história. No fundo, me divertia e me sentia a parte oculta de um todo. Às vezes, descia no ponto e passava o dia pensando em todos os desfechos possíveis para aquele relato que não se concluiu. 
Se nos encontrávamos  no dia seguinte,  tinha vontade de pedir para me atualizar dos fatos. 
Até então, nunca havia pensado em evitar o Fórumbus - era assim que eu costumava chamar. 
A gota d’água aconteceu num dia em que uma passageira, que não era habitual do horário, contava para uma outra conhecida que encontrou ali, a suspeita  de que estava sendo traída pelo namorado. Até aí tudo bem, se fosse só isso. Acontece que, conforme a história ia se desenrolando e a amiga ouvinte ia reagindo, ficava claro que a amante do namorado da minha amiga do bus - nessa altura já elevada a condição de amiga, porque eu já sofria por ela - era a colega ordinária para quem ela contava a situação. Meu ponto chegando, e eu, indignada, percebendo tudo e querendo fazer justiça. Levantei-me para descer, mas antes, encarei minha amiga, fiz uns sinais com a boca, com a cabeça e com os olhos, como que para expressar uma negação, um alerta, mas a ingênua não percebeu. Me olhou simpática, depois assustada. Acho que chegou a pensar que eu tinha cacoete. 
Dei o sinal, mas quem disse que eu desci? Não aguentei largar minha pobre amiga. Justo na hora de saltar, enquanto ela chorava de soluçar dizendo que tinha quase certeza de que ele a estava traindo com uma amiga dela e ela não iria deixar barato, a outra dizia:
— Ah, amiga, a outra não tem culpa. Ele é que é safado. Ele que fica atrás. Vai ver ela nem quer, só ficou de onda.
O ônibus arrancou e eu ao invés de seguir meu caminho, segui viagem com elas e acabei por me intrometer. Olhei bem para a cara da jararaca, e depois para minha amiga, e falei:
- Olha, ele não presta mesmo não, mas sua amiga que sai com ele vale menos ainda. Ela deve estar mais próxima de você do que você pensa. Nisso, olhando a talzinha de cima em baixo. É uma recalcada, falsa. 
Ele pode não gostar de você, mas dessa periguete menos ainda, porque ele continua querendo estar contigo. Quando você descobrir quem é, se vingue. Saia com o ex dela e poste no face. Todo mundo tem um ex que dói. 
Não ligue não. Ela é ordinária, mal amada e infeliz. 
Suponho que tenha falado tudo isso um tom
acima, porque minhas bochechas queimavam, eu estava pingando de suor e no fundo ouvi algumas palmas e um: falou bem!!!! É isso aí! Também já passei por isso.
A minha amiga traída me olhava completamente estupefata, como se estivesse diante de um
ancestral. Era um misto de medo e respeito. 
A jararaca loura parecia estar nua no banco. Perdeu toda a arrogância e superioridade. 
Acabei descendo cinco pontos depois, exausta, mas com a alma lavada. Jurei, para mim mesma, nunca mais ouvir para não ter que  me envolver. 
E, agora, nesse exato momento, nos dois minutos que preciso para pegar meu fone, ouço uma adolescente falar para outra:
— Eu já vi a foto dos meninos do intercâmbio e já RESERVEI o meu. 
Reservei? Pensei comigo: Ouvi direito? Como assim? Tem pré-venda? Essa afirmativa causou um estranhamento tão grande em mim que abandonei o fone e decidi me inteirar do assunto. 
A outra, imediatamente, respondeu que também já havia escolhido o seu. Disse: 
— Reservei o coreano. Quero ser a primeira a pegar. Depois pode ficar, se quiser. Só quero ser a primeira. 
Como não bastasse a novidade da iniciativa, a primeira falou: 
— Eu reservei o sueco. Loirinho. Lindo. Também para ser a primeira. Depois vira rodízio. E aí está liberado para geral.
Num primeiro momento, confesso que me choquei com tamanha naturalidade predatória. 
Cheguei a achar que era cena ou fruto da desilusão. 
Depois, me alegrei com a libertação da proposta. Afinal, as meninas estavam espertas, se antecipando aos homens. Pagando na mesma moeda. 
Ao final, senti uma imensa tristeza, como se estivesse de luto pela morte da paixão. Voltei no tempo, e lembrei de todas as vezes que beijei com entrega, com palpitação. De todas as vezes que o olhar do escolhido me iluminou, me acendeu. Lembrei dos arrepios, dos calafrios, dos tremores, da subversão estrutural da paixão e do prazer transbordante e avassalador do sujeito apaixonado. 
Não que não pudesse ser de outro jeito, mas tudo me parecia tão opaco, tão sem brilho, tão sem cor, tão só corpo. 
Pensei em me meter na conversa e falar: E se você gostar do beijo? E se você não quiser trocar? E se a paixão resistir a esse fast-food emocional? 
O que sobraria de belo depois desse rodízio de corpos? 
Queria, na verdade, gritar: não matem a paixão!!!! Não matem a paixão!
Antes mesmo que eu pudesse puxar a espada da sedução para defender a paixão, uma delas falou:
— E se a gente gostar do que escolheu e quiser ficar ficando com o mesmo até o fim, pode? 
Chegou meu ponto. Apressada, me levantei e não pude ouvir a resposta da outra menina, mas desci com uma alegria, uma leveza na alma, pois percebi que a paixão ainda encantava os corações. Ela sempre está ali atrás da pilastra, esperando para nos arrebatar. 
Ainda bem!!!

Caminhei pela rua, questionando se retomava o fone para me isolar das confissões coletivas ou se assumia , de uma vez por todas, minha escuta e participação no Fórumbus. Continuo indecisa. Me ajudem. Opinem!

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