Corpo e Alma
Desde muito menina, lembro que experimentava um certo estranhamento com meu corpo. Inicialmente, esse desacerto se dava em pequenos detalhes, eu corria menos do que desejava, eu caía mais do que pretendia, eu não era tão ágil como minhas amigas para plantar bananeira ou dar estrela, era um suplício fazer espacate (abrir as pernas formando um ângulo de 180º paralelo ao chão). Tudo isso me deixava um pouquinho irritada, porque, afinal, todos pareciam estar bem à vontade na sua morada. E eu, não.
Acontece que tudo era muito novo, então fui acreditando que era uma questão de tempo, de jeito. Talvez meu corpo fosse mais marrentinho, mais cheio de vontade. Decidi tentar me acertar com ele, fui agradando, fazendo as vontades. Fui seguindo junto, mas ele sempre resistindo.
Aos oito anos, experimentando um short novo, dei aquela semi virada no espelho para ver como ficava a parte de trás do short. Primeiro, achei feio, depois olhando mais um tpouquinho percebi que faltava alguma coisa, um certo enchimento, um certo elemento que traz graciosidade ao visual, e é vulgarmente conhecido como bumbum. Foi triste. Esse foi outro momento delicado na relação com esse sujeito chamado meu corpo. Não bastasse não ser habilidoso como os que eu admirava, também era menos esculpido que os demais. Como, naquela época, ainda não existia calcinha com enchimento, embora eu tenha sentido antecipadamente a necessidade dessa descoberta, tínhamos um problema insolúvel. Só me cabia conceder uma trégua e seguir em frente. Sei lá, talvez ele tivesse alguma dificuldade e precisasse de um pouco mais de tempo do que os demais. Talvez dez anos não fossem suficientes para lidar comigo. Talvez até me achasse um pouco chatinha, um pouco mimada, porque, afinal, eu cobrava, eu queria ser como minhas amigas sem ter que fazer esforço. Talvez isso tudo o amofinasse. Ele não era de muito falar, de reclamar, então, eu ainda tinha esperança que nos acertaríamos.
Aos doze anos, uma nova desilusão. Era a época da calça cocota, todas as coleguinhas usavam e eu queria usar também. Minha mãe comprou a primeira, e última, cocota da minha vida para usar no aniversário da minha melhor amiga. Mal podia esperar por esse momento. Vesti a calça com um bustiê alaranjado e fui muito animada olhar no espelho. De cara, vi que não era a mesma coisa, tinha uma saliência que tirava toda a formosura. Na frente, sobrava e atrás faltava. Lembro que arranquei a calça com muita raiva, chorei de decepção e jurei não me reconciliar. A partir daquele momento, seria cada um por si e Deus por todos. Não dava para perdoar, ele só me dava problemas. Só me desapontava. Que coisa!!!
Passados uns dias de mal, de dedos trocados, os quais eu nem sequer olhava para ele no espelho, fui amansando, refletindo melhor, sentindo falta de estar de bem e acabei me aproximando. Aliás, desde sempre, sou eu quem tento reconciliar. Ele, meu corpo, é daqueles que se você briga, fica de cara feia por semanas até você se desculpar. Orgulhoso demais!
O mais curioso é que acho que ele se comporta como se fosse o proprietário do imóvel e eu a inquilina. Ele quer ditar o contrato. Todas as cláusulas o favorecem. Eu que pague as contas, as taxas, que arrume a casa. Ele só recebe o bônus de viver com alguém especial como eu. Um dia disse isso na cara dele:
—A proprietária dessa joça sou EU. Eu tenho o poder de decidir onde nós vamos, como faremos. Já reparou que muitas vezes você quer ficar dormindo e eu decido que temos que ir? Então, para de gracinha e seja mais dócil. Você é o inquilino. Além disso, todos me elogiam, me acham divertida, inteligente, espirituosa. Sou eu a rainha do lar.
Nessa hora, a coisa ficou mais séria. Ele me ameaçou na maior cara lavada. Disse:
— Segure tua onda, que o proprietário aqui sou eu. Posso te despejar a qualquer momento com ou sem aviso prévio. A hora que eu disser que acabou a brincadeira, você está fora. A última palavra é a minha.
Fiquei passada! Me desespero quando lembro desse dia. Pensei em argumentar, dizer que não era bem assim, que era Deus quem decidia, mas recuei. Sei lá, por mais que fosse cheio de defeitos, eu me virava bem com ele. Ia vivendo, curtindo, rindo. Melhor assim. Perdoei.
Disposta a viver bem, fiz uma proposta para fazermos um esforço e alcançarmos algumas mudanças. Cada um fez sua parte e cheguei aos 14 anos, linda e doze quilos mais magra.
Nesse período, nos completamos. Nos adorávamos. Eu lhe chamava de lindo, ele dizia que eu era a mais inteligente e divertida das mulheres. Seguimos em comunhão.
Namorei, casei e, aos 28 anos, meu corpo me entregou meu maior presente, nosso filho. Claro que com o trabalho que ele realizou, por nove meses, ele não era mais o mesmo, mas eu o admirava por todo empenho e estava plenamente feliz. Porém, alguns anos se passaram, e eu acho que me afastei um pouco dele. Larguei um pouco para lá. Ainda que ele me mostrasse, no espelho, toda sua insatisfação com meus passos, eu ignorava. Estava mais envolvida com outras coisas. Tinha desistido de lutar para mudá-lo. Apenas larguei. Ocupei outros lugares, me lancei em outros espaços. Seguimos assim por um longo tempo, até que ele começou a criar confusão comigo. Vivia me trazendo problemas. Bom, escaldada com aquelas ameaças de outrora, decidi mudar. Precisava sair desse esquema do cada um por si. Ele tinha razão, estávamos fadados a pertencermos um ao outro para todo sempre. Ele era a corda da minha caçamba. Refleti melhor e voltei a me aproximar, a dar carinho em forma de cremes, hidratantes, cuidados, frutas, fibras e caminhadas. Ele foi se chegando, aceitando, reagindo melhor ao nosso dia a dia. Estávamos começando a namorar de novo e eis que ele me apronta uma certa prega no pescoço, umas rugas no rosto, uns furinhos no braço, uns vasinhos nas pernas. Meu Deus, isso é inaceitável!!! Aliás, para ser bem sincera, eu já perdoei quase tudo, mas o pescoço, não consigo. Fico pensando, por que isso? Não é possível que ele não consiga manter um pescoço esticado.
Por causa disso, tivemos uma briga séria. Falei umas verdades. Joguei na cara que ele nunca quis me agradar, sempre me causou problemas. Sempre fez questão de ser raro, diferente de todos. Não facilitava nada. Me custava caro.
Disse que ele não fazia ideia do quanto era difícil essa parceria.
Foi toda uma vida lidando com esse egoísta.
Ele não ficou calado, não, me chamou de ingrata. Disse que para chegarmos até aqui, muita coisa ele teve que aturar. Que eu comi o que quis, dormi quando quis e nunca tive disciplina. Disse que ele sempre teve que organizar a casa e eu não colaborava com nada.
Tive que concordar. Realmente sempre adorei um doce, uma fritura, um refrigerante. Sempre fiz do meu jeito e não dei muita bola não. Como os amigos e os amores não se impressionavam com ele, pelo contrário, se diziam sempre encantados comigo, com a minha simpatia, inteligência, humor e graça, acho que fui desencanando dele. Porém, agora aos 50, estou achando que precisamos mesmo nos resolver, nos amar. Firmar essa parceria e viver o que nos cabe antes que acabe.
Mais uma vez, me aproximei e propus retomar. Prometi cuidar, investir, valorizar. Ele aceitou, disse que vai colaborar. Estamos em paz.
A bem da verdade, decidi que vou assumi-lo como m(eu). Será um processo de adoção mesmo. Não quero mais esse estranhamento. Não quero esse conflito de interesses. Chega de buscar culpados. Não sei se, por sorte ou azar, viemos juntos nessa aventura e é hora de darmos as mãos. Eu e ele somos um. E nesse universo precisamos nos completar. É claro que não é tarefa fácil com essas preguinhas no pescoço e com essa papada, mas me rendo e peço paz. Vamos viver o que vier com alegria e disposição. Te aceito sem restrição. Vem, me dê a mão, vamos brincar de rodopiar com quem souber nos amar. Vai ser leve. Vai ser lindo.
Vamos rir, vamos nos declarar. Sem mim, você não é nada, sem você eu não sou nem Karma.
Não importa quem é proprietário, quem é inquilino, cuidemos da casa com todo nosso carinho. Você é meu corpo e eu sou sua alma. Me abraça e me beija com calma.
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