Castanholas

Essa semana, eu estava ouvindo uma música do Oswaldo Montenegro que perguntava onde eu me reconhecia, se na foto passada ou no espelho de agora? Não precisei de 3 segundos para responder. Aliás, nem precisei pensar. De cara respondi: Na foto antiga! Imagina se eu quero qualquer reconhecimento com as sobras de agora. Por que me reconheceria nas marcas do tempo? Nesse instante, como se fosse sugada pelas lembranças, me transportei para o passado. Nossa, me deu um amor! Lembrei das pernas que faziam sucesso, daquele cabelo dourado que parecia que fazia luzes, aquele rostinho lindo que eu tinha. Lembrei dos braços firmes, da pele de pêssego, do sorriso brejeiro. Lembrei do tempo maravilhoso em que as expressões eram suaves, delicadas, e não deixavam marcas.
Viajei no tempo lembrando das roupas que ficavam lindas em mim, de como eu as escolhia de acordo com as minhas intenções. Lembrei do quão bem-sucedida eu era nas conquistas, do quanto eu gostava de seduzir, brincar de paixão. Lembrei da confiança que eu tinha no meu taco, do quanto eu me sabia capaz de conquistar quem eu quisesse conquistar. Nessa hora, confesso, senti uma tristeza lá no fundo, porque de tudo que perdi com o passar dos anos, o que mais me ressinto foi de ter perdido a confiança no meu taco. Aliás, o tempo pegou meu taco e o tacou na parede, jogou no chão, pisou em cima, partiu em mil pedaços, gargalhou, deu as costas e se foi. Me deixou ali, no chão, passada, sem saber o que fazer. Como restaurar meu taco? Não dá para colar tudo só com o fato de que sou divertida e me acham inteligente. Essa é a questão: não tem como botar a lingerie nas ideias, no intelecto.
O pior de envelhecer para mim, foi isso, não conseguir mais acreditar nas minhas infalíveis armas de sedução. De uma hora para outra, todos os apetrechos que eu dominava, se foram. Não cabe mais o beicinho mimado, o sorrisinho malicioso, o olhar de súplica, a cruzada de pernas, a vozinha de gata no cio. Tudo isso passou a soar estranho, inapropriado e, às vezes, até ridículo. Acontece que, aos 50, você não recebe um manual atualizado sobre as novas armas de conquista. Eu fiquei ali, paralisada, destituída do meu poder. Foi como se o tempo tivesse entrado na minha casa, quebrado tudo, e só tivesse deixado duas armas - a inteligência e o humor - e tivesse dito:
—A partir de agora, você só tem esses dois itens para lutar. Isso é tudo. Boa sorte!
Outra imagem que me vem à cabeça é a do jogo War. Eu só tenho dois exércitos e meu objetivo é conquistar Ásia, África e mais um terceiro continente a minha escolha. Impossível! Vou ser dizimada. Os outros exércitos são bem mais poderosos.
É claro que muitas pessoas chegam aos 50 com quase todas as armas, mas esse não foi o meu caso. Só fiquei com as armas internas mesmo, mas como isso vai funcionar no barzinho, na festa da amiga? É complicado. Se estou na festa e vejo alguém me olhando, já digo as horas. Sim, nunca acho que é flerte. Penso que é alguém que quer me perguntar que horas são. Não que eu não possa me arrumar e ficar jeitosinha. Sei que fico, mas e daí? Isso não me empodera. Não me sinto seduzida por mim. Não me conquisto. Esse é o problema. Não preservei minhas armas e não me preparei para lutar sem elas. E agora, como faço? Chego dizendo: olha, sei que você não pode ver, mas por dentro sou um encanto. Inteligente, divertida. Permita-se entregar-se ao oculto!
Não dá, gente, não flui. Não consigo.
Sei que dizem que há sempre um chinelo velho para um pé descalço, mas quero uma Havaiana em ótimo estado. Entende? Não quero gasta, nem com a tira remendada. Aí complica. Sou exigente sem ter cacife para bancar a jogada. Sou abusada mesmo.
Por tudo isso, escolhi me reconhecer na foto antiga. Aliás, é quase me conhecer na foto antiga. Porque já é tão diferente do que vejo hoje, que não lembro de ter sido exatamente daquele jeito.
Bom, já havia dado a minha resposta, eu era a mocinha da foto antiga, quando surgiu uma dúvida. Isso porque lembrei que, no auge do meu sucesso, eu era um pouquinho tola. Não tinha muita habilidade para lidar com a vida, tinha uma pressa em realizar que me tirava um pouco o sabor das experiências. Dava muito a valor a coisas e pessoas que não eram tão valiosas assim. Estava sempre na busca. Acho que me desgastava demais com coisas que não mereciam tanta atenção. Era um pouco bobinha mesmo. Aceito que era bem mais bonitinha do que hoje, mas não era experiente e vivia uma certa tensão, um medo do que viria a ser.
Pensando bem, acho que gosto muito do que aprendi com o tempo. Antes, eu me iludia muito mais, hoje, eu realizo. Sei lá, tinha uma certa beleza para entreter os olhos dos homens, mas não sabia bem o que me agradava neles. Sabia seduzir pelas palavras, sabia conquistar, mas acho que saboreava menos. Tinha traquejo na conquista e uma certa automação no processo. Não sei se estava ali realmente por inteiro. Lembro que tinha, também, um certo vazio que não sabia como preencher. Mais tarde, aprendi que viajando eu preenchia, e isso mudou meu eu. Depois, com os fios brancos, já não tinha mais o risco de perder a cor maravilhosa e natural dos cabelos, já tinha perdido. Então, agora, podia ter cabelos da cor que quisesse, bastava pintá-los. Que conquista! Depois vieram as rugas e, por serem definitivas, também já não me aterrorizavam como as espinhas.
Levando tudo isso em conta, comecei a ficar um pouquinho insegura com relação a minha escolha. Não sei se me reconheço na foto antiga. Talvez me sinta mais à vontade com a que vejo no espelho. Essa é mais pé no chão. É mais a minha cara, literalmente. A outra, hoje, é só contorno. A que vejo no espelho quer viver, quer movimento, mas não tem aquela pressa desesperada. Diria que tem uma leve urgência que mobiliza recursos para que as coisas aconteçam. Com a mocinha da foto moravam muitos sonhos, com a mulher do espelho vivem os projetos que quero realizar. Ela não tem aquele taco poderoso que a da foto tinha, não é a jogadora mais rápida do time, mas tem conhecimento técnico do jogo. Domina a tática, as artimanhas e as combinações possíveis para finalizar a jogada. E, certamente, sabe desempatar o jogo. Não sei, acho que ela é a dona da bola. Ela tem aquela sensação de semifinal de campeonato. Para a outra, da foto antiga, era sempre amistoso.
Sim, quero mudar a minha resposta. Sou grata à menina da foto que me ensinou a curtir, a seduzir, a conquistar amores e momentos felizes, mas me reconheço mesmo é nessa mulher que vejo no espelho. Ela não é mais bonita como foi, não tem mais a pele firme de outrora, mas não deixou de ser menina, de ser arteira, de ser charmosa, esperta, astuta e sagaz. Agora, vejo que as armas são outras, mas o poder é o mesmo. Hoje, sei que não confio mais no meu taco daquela época. Sim, para novos tempos, eles não serão mesmo eficientes, mas desenvolvi outras armas tão poderosas quanto os tacos, mas para outros fins. Afinal, os homens que se dobravam aos tacos, não me interessam mais.
Troquei os tacos pelas castanholas. Não preciso mais da força bruta, da precisão do corte, preciso de habilidade, ritmo, harmonia, criatividade, música, molejo, alegria e dança. Quem se seduzir com o som da minha gargalhada, com o ritmo do meu desejo, com a minha alegria de viver, certamente vai querer dançar comigo. Que se danem os tacos! Eu quero é música! A da foto não pode mais rodopiar por aí. Eu posso! Posso e vou me reinventar, descobrir novos ritmos, novos passos e novos bailes. Vou debutar agora com o vestido e com o sapato mais confortável, que me permita dançar a noite toda. Vou suar e borrar a maquiagem, já não me preocupa tanto a foto. Hoje, sei que elas ficam antigas.
O que me faz feliz é o que sou e ainda posso ser. Não quero me reconhecer no que já não existe. Sou a que vive agora. A que pulsa!
Prazer, Eu sou a mulher do espelho. Estou viva e sou feliz! Dentro de mim, vive o melhor da menina da foto antiga, mas sou a mulher do espelho.
Maestro, a música! Essa noite eu quero dançar! Que me acompanhem todos que forem capazes de ouvir e tocar as castanholas!

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