As Três Irmãs

Não sei se por sorte ou azar, na minha infância, eu era vizinha de três irmãs muito unidas, Dúvida,  Vergonha e Culpa. Muitas das confusões dessa época se deram por conta da rejeição que o nosso grupo tinha dessas três. Embora todos quisessem que elas estivessem longe dali, elas sempre arrumavam um jeito de estar entre nós.
Dúvida nos irritava muito, pois toda vez que decidíamos do que iríamos brincar, lá vinha ela com aquele jeitinho enjoado nos fazer desconfiar do que havíamos escolhido. Sempre nos fazia sentir que poderíamos nos arrepender para sempre.
Bastava uma decisão: vamos brincar de pique-esconde! Logo ela falava: será que vai ser legal? Não seria melhor pique-pega? Tem certeza que quer pique-esconde? Pronto, Ela novamente nos tirava a paz. O estranho é que hoje eu percebo que o joguinho da Dúvida só dava certo porque nos fazia crer que tudo era definitivo, que uma vez escolhido, não teria volta. Era ela chegar que andávamos em círculos e não conseguíamos avançar.
Vergonha, a irmã do meio, era sempre muito crítica, muito perfeccionista, muito julgadora de tudo e de todos. Acho, inclusive, que era de virgem. Aquela sabia nos inibir. Mal chegava e todas nós perdíamos a naturalidade. Não sei bem explicar, mas Vergonha era uma trava na nossa vida. Sua presença tornava tudo muito opressor. Ela nos paralisava, sempre nos convencia da nossa  piquinez. Bastava ela estar e nós já achávamos que éramos menos do que devíamos ser. Contudo, preciso reconhecer que, das três irmãs, vergonha era a mais fácil de se vencer.
Descobrimos isso por um acaso.
Um dia  estávamos todas brincando de queimado e Vergonha começou a debochar do jeito que cada uma de nós arremessava a bola. Ela foi nos provocando profundamente, até que Ousadia, irmã da Coragem do apartamento 305 começou a inventar jogadas bem desengonçadas e a rir disso. Ousadia dizia: olha, eu jogo do meu jeito e assumo! Começamos a rir sem parar e a valorizar o nosso jeito  de jogar. Depois disso, vergonha subiu e não quis mais brincar. Começamos a comemorar a nossa Vitória. Nossa paz durou pouco, logo chegou Culpa, a irmã mais velha de Vergonha, para tomar satisfação. Aliás, das três, Culpa era a mais insuportável. Ela tinha um prazer mórbido em atazanar. Era tirânica mesmo. Acabava com a graça de qualquer brincadeira. Ela sempre se achava certa e dona da verdade. Não aceitava negociação. E nada lhe deixava satisfeita. Tinha um prazer sádico nas pequenas coisas. E sempre queria nos impor severas restrições. Quando ela chegava no grupo, tínhamos que limitar seu espaço,  porque ela sempre tentava se apossar de tudo e nos fazer ver o nosso pior com lentes de aumento. Culpa não acreditava no futuro, remoía, até a morte, o passado. Tinha memória seletiva, só lembrava do pior de cada momento e adorava jogar tudo na nossa cara. Tentávamos fugir dela como o diabo da cruz, mas ela, sorrateira e ardilosa, SEMPRE nos achava.
Um dia, Esperança, a mais bonita entre nós, decidiu confrontar Culpa. Chamou-a para brincar de verdade ou consequência. Culpa aceitou surpresa, porque sabia que não gostávamos dela. Quando começou a brincadeira, Esperança perguntou à Culpa se ela se sentia atraída por Perdão, seu oposto complementar. Culpa, furiosa com essa exposição, preferiu a consequência. Depois de muito confabularmos, decidimos que Culpa teria que se reconciliar com Amor Próprio,  o mais poderoso e cobiçado entre nós. Ele, diante da trolagem, sorriu com toda a sua doçura. Era incrível como a presença do Amor Próprio nos fazia bem. Bastava ele chegar para nos encorajar. Quando ele estava no nosso time, tudo parecia fluir abundantemente.
Fizemos uma rodinha para que Culpa se desculpasse com Ele. Culpa disse: Desculpa, Amor próprio, eu só queria te punir para te educar. Mas nunca me dava por satisfeita. Nada do que você fazia me parecia suficiente. Quero suas desculpas porque estou cansada de só levar sofrimento. Todos me odeiam.
Enquanto todas nós olhávamos pasmas para esse desabafo,  Amor Próprio respondeu: Culpa, você nos ajuda a reconhecer erros e a buscar consertá-los, mas quando você se torna implacável, você deixa de nos ajudar e passa a nos torturar, a nos fazer sofrer e , com suas intrigas, acaba por nos afastar da Esperança e do Perdão. Por isso, ninguém quer brincar com você, mas eu  sei como te ajudar. Vou te apresentar a uma rival minha, chamada Paixão. Essa é doida, escandalosa, atrevida, causa todo tipo de prazer e de transtorno, mas, quando desmedida, leva ao sofrimento e ao desespero; e aí entra você. Acho que Paixão precisa de um pouquinho de Culpa para se ajustar, porque, senão, ela põe tudo a perder. Seja amiga de Paixão e a ajude a maneirar. Do lado dela, você vai se sentir útil.  No início, ela vai te evitar, mas, se pelo menos te ouvir um pouquinho, aprenderá a ser mais cuidadosa e, com isso, viverá mais tempo.
Você aceita a proposta?
Culpa perguntou: Paixão é chata?
Amor Próprio respondeu: Ela é um perigo! É linda, sedutora, ardilosa e tem o dom de levar cor por onde passa. Causa uma espécie de necessidade que tudo devora. Ao chegar, ela, inebria, convoca a ação e bagunça tudo. Por isso, Culpa, preciso de você para dar um limite nessa destemida, mas faça com muito cuidado, porque Paixão sempre toma conta de sua irmã caçula, Alegria. Preste bem atenção: Jamais fira Alegria. Ela é ingênua,  suave como uma brisa, muito menina e muito dócil. Embora Paixão a puxe pela mão, é a minha presença que a faz despertar. Ela é o meu bem querer. Meu encanto.
E quanto a Paixão, só a ajude a não se destruir, mas não a aprisione, pois Paixão é selvagem, precisa de muito espaço para circular
Tomarei cuidado com ela, Amor Próprio, mas a propósito, você me perdoa?
Culpa, você já está perdoada, olha quem chegou do seu lado...
Paz e Felicidade, quanto tempo não vejo vocês. Vamos brincar de pique?

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