Na Academia
Faz tempo que venho adiando o momento de entrar numa academia. Motivos para entrar e para fugir, eu tive ao longo de toda minha vida. Na verdade, por mais que atualmente o apelo seja em função da saúde e a fuga em função da minha felicidade, já houve época em que o mote era o peito da moda, o bumbum caça-marido, a coxa segura-malandro e a fuga se baseava na preguiça de caçar o príncipe. Afinal, o pote de Nutella sempre me exigiu menos e me fez mais feliz.
A barriga sarada, eu sabia, inatingível desde muito cedo, então nunca foi fonte de motivação. Se, aos 7 anos de idade, não pude usar a tão desejada calça cocota, porque ela já estava ali, imagina, se depois de tantos anos, ela iria me abandonar. Impossível! Era tinhosa, exibida. Qualquer roupa que eu colocava, ela vinha se mostrar. Sempre brigamos! Ela sempre quis aparecer mais do que eu, e, na maioria das vezes, conseguiu.
O tempo foi passando, e esse conflito entre o sonho de ser o cisne e a dura realidade de ser o pato me consumia, embora não ao ponto de me fazer nadar no lago até transmutar.
Claro que tive muitas segundas-feiras em que o amor próprio deu na minha cara e determinou: comece hoje! Se matricule e siga em frente. Você vai ter o corpinho que sempre quis. Eu, com o rosto ardendo, era tomada por um sentimento de triunfo, estufava o peito e obedecia. Fazia matrícula, comprava todo o enxoval para a ginástica, sim, era esse o nome, fitness é coisa de agora. Comprava bolsa de academia, tênis, as meias da moda e até garrafinha, que hoje, sem motivo aparente, chamam de squeeze.
Tudo pronto, tudo feito e, de repente, como num passe de mágica, acabava a ilusão, a fantasia, porque encanto e motivação eu nunca cheguei a ter. Eu sumia dali.
Mais uma vez, eu voltava à condição inicial de pato, mas isso até me dava um certo alívio, sabia? Eu era um pato que encontraria um sapo pra chamar de meu e tudo bem. No fundo, era melhor assim. Negócio enjoado esse troço de agradar boto, digo, príncipe.
Hoje, constato que, ao longo dos anos, fui mais eficiente na fuga do que na busca e me virei como pude. Porém, de uns anos pra cá, para qualquer problema na vida, desde obesidade até a depressão, a medicina diz que malhar é a solução. Muito resisti, me debati, rebelei, mas acabei por aceitar. Agora, o motivo não é mais afogar o ganso, mas, sim, não se afogar no lago.
Devidamente matriculada na academia, resgatei o investimento de outrora nas coleções “fitness”, era bom estar atualizada com os termos. Lá fui eu, mais uma vez, toda paramentada para o primeiro dia de malhação com aquela certeza da vitória.
Logo que entrei na academia, senti que décadas criavam um abismo entre nós. Eu não saberia dizer o que me derrubou primeiro. A sensação era a de que havia sido abduzida do passado e lançada, sem dó nem piedade, no futuro. A começar pelas roupas. Eu, de bermuda e blusa de malha, como costumava ser no meu tempo; e todo o resto da população fitness com uma espécie de macacão de lycra que parecia já nascer moldado no corpo das divas. Num primeiro instante, achei que tinha entrado, por engano, na sala das perfeições. Fiquei pensando que ali deveria ser uma outra dimensão na evolução dos corpos. Sim, se existem espíritos que alcançam a iluminação, esses corpos alcançaram a perfeição. Tinham beleza e magnetismo. Rápido percebi que estava na sala errada, essa era destinada aos corpos que zeraram a gordura e o Karma.
Azar o meu já ter a visão do topo, da evolução plena, porque isso, para um corpo atrasado como o meu, ao invés de animar, desanimou demais. Primeiro, senti aquela invejazinha de quem queria um pouquinho dessa sorte - ou dessa benção - e depois me deu aquela aceitação das limitações que tudo alivia. Me acomodei na escuridão e já estava buscando a saída quando me deparei com um outro corpo preso nas trevas. Olhei para ela e falei:
— Precisamos sair daqui. Aqui é o paraíso e já vi que não é nosso lugar.
A sem noção, ignorando toda a escala Kármica, me perguntou:
— Por que não? Tá doida? Eu malho aqui.
Eu, tentando orientar esse corpo rebelde, falei:
— Foque nos peitos. Está vendo? Para estar aqui, pelo que vi, tem que ter peito-bola. Eles vão inflando com a evolução. São duros e não se abalam com nenhuma energia ruim. E olha os cílios, está vendo? São enormes. Todas têm esses cílios, acho que crescem de acordo com a expiação que passam. Além disso, todas estão maquiadas. Repara, pelo amor de Vênus. Tem muita sombra, muito blush, muito gloss vermelho, cabelo solto, ou seja, são corpos evoluídos, não transpiram mais. Já pagaram toda a dívida com o cosmos. Ficam aqui a conversar, sorrir, azarar, fazer umas séries sem nenhuma gota de suor a pingar. Vem comigo, criatura, precisamos achar nosso lugar. Ela se recusou veementemente, e eu entendi que talvez fosse um corpo obsessor, desses que só deseja ser como os magnéticos, mas não batalha pela sua própria energia. Tentam usar o macacão das Divas sem perceber que não tem o mesmo contorno. Deixei-a lá.
Saí dali correndo, e, para meu desespero, encontrei alguns corpos masculinos que não sabiam dizer onde era a sala de cura e purificação. Esses, acredito que eram corpos ainda em evolução, mas ainda muito presos à escuridão. Baseei minhas conclusões em dois fatos: o apego ao espelho e à altura das meias pretas. Todos usavam meias pretas na metade da canela, só a escuridão pode explicar tal feito. Ninguém usaria isso se não fosse por razões kármicas.
No meio desse desespero, encontro o meu lugar nesse treinamento para a luz. Não sei como não pensei nisso antes, o meu corpo só poderia estar no primeiro estágio, onde estão os corpos sem poder magnético. De longe, vi um guia espiritual que fazia os movimentos necessários à evolução de todos. Também gritava palavras de ordem que animavam todo o grupo.
Para a minha surpresa, o meu inferno era de água. Claro, se fosse de fogo queimaria todas as calorias. Era ali que deveria começar a minha caminhada. Nesse espaço, todos de toquinha eram iguais a mim. Éramos separados dos corpos mais evoluídos por um vidro. Víamos quando eles passavam, tanto os maquiados quanto os meinhas. E víamos também quanto desprezo nos dirigiam. De todo modo, o que eu mais desejava era evoluir ao ponto de, assim como eles, chacoalhar uma garrafinha com um líquido que me pareceu mágico, dado o ritual que ele exigia. Mas, para isso, teria que esperar, porque creio que só se alcança esse estágio quando o corpo já está num certo Way.
Bom, de qualquer forma, eu precisei adiar o início da caminhada para minha purificação, pois hoje vim sem Maiô.
A barriga sarada, eu sabia, inatingível desde muito cedo, então nunca foi fonte de motivação. Se, aos 7 anos de idade, não pude usar a tão desejada calça cocota, porque ela já estava ali, imagina, se depois de tantos anos, ela iria me abandonar. Impossível! Era tinhosa, exibida. Qualquer roupa que eu colocava, ela vinha se mostrar. Sempre brigamos! Ela sempre quis aparecer mais do que eu, e, na maioria das vezes, conseguiu.
O tempo foi passando, e esse conflito entre o sonho de ser o cisne e a dura realidade de ser o pato me consumia, embora não ao ponto de me fazer nadar no lago até transmutar.
Claro que tive muitas segundas-feiras em que o amor próprio deu na minha cara e determinou: comece hoje! Se matricule e siga em frente. Você vai ter o corpinho que sempre quis. Eu, com o rosto ardendo, era tomada por um sentimento de triunfo, estufava o peito e obedecia. Fazia matrícula, comprava todo o enxoval para a ginástica, sim, era esse o nome, fitness é coisa de agora. Comprava bolsa de academia, tênis, as meias da moda e até garrafinha, que hoje, sem motivo aparente, chamam de squeeze.
Tudo pronto, tudo feito e, de repente, como num passe de mágica, acabava a ilusão, a fantasia, porque encanto e motivação eu nunca cheguei a ter. Eu sumia dali.
Mais uma vez, eu voltava à condição inicial de pato, mas isso até me dava um certo alívio, sabia? Eu era um pato que encontraria um sapo pra chamar de meu e tudo bem. No fundo, era melhor assim. Negócio enjoado esse troço de agradar boto, digo, príncipe.
Hoje, constato que, ao longo dos anos, fui mais eficiente na fuga do que na busca e me virei como pude. Porém, de uns anos pra cá, para qualquer problema na vida, desde obesidade até a depressão, a medicina diz que malhar é a solução. Muito resisti, me debati, rebelei, mas acabei por aceitar. Agora, o motivo não é mais afogar o ganso, mas, sim, não se afogar no lago.
Devidamente matriculada na academia, resgatei o investimento de outrora nas coleções “fitness”, era bom estar atualizada com os termos. Lá fui eu, mais uma vez, toda paramentada para o primeiro dia de malhação com aquela certeza da vitória.
Logo que entrei na academia, senti que décadas criavam um abismo entre nós. Eu não saberia dizer o que me derrubou primeiro. A sensação era a de que havia sido abduzida do passado e lançada, sem dó nem piedade, no futuro. A começar pelas roupas. Eu, de bermuda e blusa de malha, como costumava ser no meu tempo; e todo o resto da população fitness com uma espécie de macacão de lycra que parecia já nascer moldado no corpo das divas. Num primeiro instante, achei que tinha entrado, por engano, na sala das perfeições. Fiquei pensando que ali deveria ser uma outra dimensão na evolução dos corpos. Sim, se existem espíritos que alcançam a iluminação, esses corpos alcançaram a perfeição. Tinham beleza e magnetismo. Rápido percebi que estava na sala errada, essa era destinada aos corpos que zeraram a gordura e o Karma.
Azar o meu já ter a visão do topo, da evolução plena, porque isso, para um corpo atrasado como o meu, ao invés de animar, desanimou demais. Primeiro, senti aquela invejazinha de quem queria um pouquinho dessa sorte - ou dessa benção - e depois me deu aquela aceitação das limitações que tudo alivia. Me acomodei na escuridão e já estava buscando a saída quando me deparei com um outro corpo preso nas trevas. Olhei para ela e falei:
— Precisamos sair daqui. Aqui é o paraíso e já vi que não é nosso lugar.
A sem noção, ignorando toda a escala Kármica, me perguntou:
— Por que não? Tá doida? Eu malho aqui.
Eu, tentando orientar esse corpo rebelde, falei:
— Foque nos peitos. Está vendo? Para estar aqui, pelo que vi, tem que ter peito-bola. Eles vão inflando com a evolução. São duros e não se abalam com nenhuma energia ruim. E olha os cílios, está vendo? São enormes. Todas têm esses cílios, acho que crescem de acordo com a expiação que passam. Além disso, todas estão maquiadas. Repara, pelo amor de Vênus. Tem muita sombra, muito blush, muito gloss vermelho, cabelo solto, ou seja, são corpos evoluídos, não transpiram mais. Já pagaram toda a dívida com o cosmos. Ficam aqui a conversar, sorrir, azarar, fazer umas séries sem nenhuma gota de suor a pingar. Vem comigo, criatura, precisamos achar nosso lugar. Ela se recusou veementemente, e eu entendi que talvez fosse um corpo obsessor, desses que só deseja ser como os magnéticos, mas não batalha pela sua própria energia. Tentam usar o macacão das Divas sem perceber que não tem o mesmo contorno. Deixei-a lá.
Saí dali correndo, e, para meu desespero, encontrei alguns corpos masculinos que não sabiam dizer onde era a sala de cura e purificação. Esses, acredito que eram corpos ainda em evolução, mas ainda muito presos à escuridão. Baseei minhas conclusões em dois fatos: o apego ao espelho e à altura das meias pretas. Todos usavam meias pretas na metade da canela, só a escuridão pode explicar tal feito. Ninguém usaria isso se não fosse por razões kármicas.
No meio desse desespero, encontro o meu lugar nesse treinamento para a luz. Não sei como não pensei nisso antes, o meu corpo só poderia estar no primeiro estágio, onde estão os corpos sem poder magnético. De longe, vi um guia espiritual que fazia os movimentos necessários à evolução de todos. Também gritava palavras de ordem que animavam todo o grupo.
Para a minha surpresa, o meu inferno era de água. Claro, se fosse de fogo queimaria todas as calorias. Era ali que deveria começar a minha caminhada. Nesse espaço, todos de toquinha eram iguais a mim. Éramos separados dos corpos mais evoluídos por um vidro. Víamos quando eles passavam, tanto os maquiados quanto os meinhas. E víamos também quanto desprezo nos dirigiam. De todo modo, o que eu mais desejava era evoluir ao ponto de, assim como eles, chacoalhar uma garrafinha com um líquido que me pareceu mágico, dado o ritual que ele exigia. Mas, para isso, teria que esperar, porque creio que só se alcança esse estágio quando o corpo já está num certo Way.
Bom, de qualquer forma, eu precisei adiar o início da caminhada para minha purificação, pois hoje vim sem Maiô.
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