A Outra
Hoje mal acordei e, antes mesmo que pudesse agradecer à vida o meu existir, me deparei com uma senhora que ocupava meu lugar no espelho. Com um sorrisinho de canto de boca, ela insistia em me dizer que era eu.
- Oii??? - Dei uma gargalhada descrente, óbvio que me impus como pude e disse para ela:
- Nem brincando, meu bem. Pare com sua inveja. Pare de querer minha juventude, meu ânimo, minha pele, meu charme. Se aceita! Assuma seus anos 60, seu bracinho mole e me deixe em paz. Não venha de trolagem, não. Saia do meu espelho. Devolva-me minha visão, minha memória, minha ousadia. Leve daqui essa caixa de Pandora. Eu sou a filha de Maya e, com o que vou lembrando de mim, construo a minha cortina de ilusões. Gosto demais de morar naquela alegria de lembrar do que já fui. Nem vem que não tem.
Me encarando, aquelazinha, que se mostrava focada em me derrubar, retrucava:
- Ah, por favor... Jura que você não notou que o tempo passou? Olha a fatura do cartão. Percebe o quanto você gasta todo mês para colorir o tempo? Ontem mesmo você notou que agora o delineador mais borra do que desenha. Lembra? Eu ouvi bem quando você disse que a vida é injusta, porque na hora que mais se precisa de maquiagem para disfarçar, menos se enxerga para caprichar.
- Que isso? Eu falei isso??
Enquanto eu ouvia a doida do espelho, me batia um certo desespero e a necessidade de recolher provas que refutassem essas inverdades que ela me dizia. Comecei a me movimentar na frente do espelho, a mexer as mãos, fazer caretas, tal qual a criança que ainda não se reconhece na imagem que vê e desafia o espelho.
E pasmem: A outrazinha repetia meus movimentos com a mesma rapidez. Fiquei boba de ver como me imitava bem.
A atrevida ainda me falou:
- Viu? Se convenceu? Aceite! Por fora você é refrigerante convenção quente, mas por dentro você é vinho, respeite a sua safra.
Alto lá! Como assim? Convenção quente? Por fora quero ser caipirinha, não é tão interessante quanto um _dry martini_, mas esquenta tudo por dentro do mesmo jeito.
Nisso, a implicante de Woodstock, não parava de repetir com uma vozinha irritante: Tobi, Tobi, Tobi.
Nessa hora me subiu um ranço emocional tão profundo que respondi abusada: tá falando o quê? Tem gente que adora um guaraná convenção. Sai daí. Me Dá licença? O que é que eu te fiz? Chega, arrasa com tudo, vai me entubando os cabelos brancos, apaga todas as coisas que eu adorava chamar de Eu e quer ser minha amiga?
Já tínhamos rompido nossa amizade há muitos anos atrás, quando você apareceu no meu espelho com esse mesmo jeitinho arrogante e me disse: qual o problema? Aceita que esse peito é seu mesmo. Sim, agora você vai ter pelos e vai menstruar. Encara que esse corpo é teu.
- Você lembra desse dia? Sua primeira catastrófica aparição. Já chegou esclarecendo de uma só vez que eu era apenas inquilina do corpo que eu julgava ser proprietária. E eu só tinha 12 anos. Que absurdo! Sofri muito, mas doeu menos do que agora. Porque com os peitos e pelos vieram as paixões, as emoções. E, logo, fui achando divertido ser aquela mocinha que refletia tanta graça, mas agora... está sendo um desafio me ajeitar comigo.
- Ah, pare de reclamar. Tudo você estranha.
- Você fala assim porque não é com você. Aliás...é com você, também. Você é o meu desdobramento no tempo...não é isso?
- Não! Eu sou o seu reflexo mais nítido. Eu sou a sua face champanhe. Aquela que não se cansa de fazer borbulhar a vida, não importa a ocasião. A bebida leve, que toca os lábios com doçura e elegância e que brinda os momentos nos quais o amor é consagrado.
- Deixe de ser tola! Acorde desse sonho de princesa. Olhe pra esse espelho, pare de sonhar com a caipirinha que acabou, que você já não é e que muita ressaca te deu. Não perca tempo querendo saber quem é a Cinderela.
Erga a tua taça e brinda o poder de ser Champagne.
Borbulhe! Apenas Borbulhe!
- Oii??? - Dei uma gargalhada descrente, óbvio que me impus como pude e disse para ela:
- Nem brincando, meu bem. Pare com sua inveja. Pare de querer minha juventude, meu ânimo, minha pele, meu charme. Se aceita! Assuma seus anos 60, seu bracinho mole e me deixe em paz. Não venha de trolagem, não. Saia do meu espelho. Devolva-me minha visão, minha memória, minha ousadia. Leve daqui essa caixa de Pandora. Eu sou a filha de Maya e, com o que vou lembrando de mim, construo a minha cortina de ilusões. Gosto demais de morar naquela alegria de lembrar do que já fui. Nem vem que não tem.
Me encarando, aquelazinha, que se mostrava focada em me derrubar, retrucava:
- Ah, por favor... Jura que você não notou que o tempo passou? Olha a fatura do cartão. Percebe o quanto você gasta todo mês para colorir o tempo? Ontem mesmo você notou que agora o delineador mais borra do que desenha. Lembra? Eu ouvi bem quando você disse que a vida é injusta, porque na hora que mais se precisa de maquiagem para disfarçar, menos se enxerga para caprichar.
- Que isso? Eu falei isso??
Enquanto eu ouvia a doida do espelho, me batia um certo desespero e a necessidade de recolher provas que refutassem essas inverdades que ela me dizia. Comecei a me movimentar na frente do espelho, a mexer as mãos, fazer caretas, tal qual a criança que ainda não se reconhece na imagem que vê e desafia o espelho.
E pasmem: A outrazinha repetia meus movimentos com a mesma rapidez. Fiquei boba de ver como me imitava bem.
A atrevida ainda me falou:
- Viu? Se convenceu? Aceite! Por fora você é refrigerante convenção quente, mas por dentro você é vinho, respeite a sua safra.
Alto lá! Como assim? Convenção quente? Por fora quero ser caipirinha, não é tão interessante quanto um _dry martini_, mas esquenta tudo por dentro do mesmo jeito.
Nisso, a implicante de Woodstock, não parava de repetir com uma vozinha irritante: Tobi, Tobi, Tobi.
Nessa hora me subiu um ranço emocional tão profundo que respondi abusada: tá falando o quê? Tem gente que adora um guaraná convenção. Sai daí. Me Dá licença? O que é que eu te fiz? Chega, arrasa com tudo, vai me entubando os cabelos brancos, apaga todas as coisas que eu adorava chamar de Eu e quer ser minha amiga?
Já tínhamos rompido nossa amizade há muitos anos atrás, quando você apareceu no meu espelho com esse mesmo jeitinho arrogante e me disse: qual o problema? Aceita que esse peito é seu mesmo. Sim, agora você vai ter pelos e vai menstruar. Encara que esse corpo é teu.
- Você lembra desse dia? Sua primeira catastrófica aparição. Já chegou esclarecendo de uma só vez que eu era apenas inquilina do corpo que eu julgava ser proprietária. E eu só tinha 12 anos. Que absurdo! Sofri muito, mas doeu menos do que agora. Porque com os peitos e pelos vieram as paixões, as emoções. E, logo, fui achando divertido ser aquela mocinha que refletia tanta graça, mas agora... está sendo um desafio me ajeitar comigo.
- Ah, pare de reclamar. Tudo você estranha.
- Você fala assim porque não é com você. Aliás...é com você, também. Você é o meu desdobramento no tempo...não é isso?
- Não! Eu sou o seu reflexo mais nítido. Eu sou a sua face champanhe. Aquela que não se cansa de fazer borbulhar a vida, não importa a ocasião. A bebida leve, que toca os lábios com doçura e elegância e que brinda os momentos nos quais o amor é consagrado.
- Deixe de ser tola! Acorde desse sonho de princesa. Olhe pra esse espelho, pare de sonhar com a caipirinha que acabou, que você já não é e que muita ressaca te deu. Não perca tempo querendo saber quem é a Cinderela.
Erga a tua taça e brinda o poder de ser Champagne.
Borbulhe! Apenas Borbulhe!
Comentários
Mirian
Maravilhoso texto!
Seu texto está maravilhoso! Me fez recordar que o que tenho por baixo da gordura e do cansaço pode ser muito amor próprio. Obrigada!